Cultura
“Palcos de Santo Tirso” passou por Monte Córdova e teve casa cheia

14519870_585199374938536_3500610577775248248_nDe 1 a 22 de outubro, Santo Tirso volta a ser o palco do teatro amador, numa iniciativa promovida pela Câmara Municipal em parceria com a Companhia de Teatro de Santo Tirso. Na sua segunda edição, o Palcos de Santo Tirso – Festival de Teatro Amador regressa para apresentar mais de uma dezena de espetáculos, protagonizados por companhias provenientes de todo o país.

No ultimo domingo, 2 de outubro a iniciativa passou por Monte Córdova, com a peça “O Aniversário de Casamento”, que foi apresentada pela companhia Nova Comédia Bracarense, no Salão Paroquial da freguesia.

Com direito a casa cheia, o certame contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Santo Tirso, Joaquim Couto, do vereador da cultura, Tiago Araújo, bem como de muito publico avido de ver teatro, que numa terra com grandes tradições na area , mas que ultimamente, não tem sido dado seguimento às mesmas. Destaque ainda para a presença dos idosos da associação de Solidariedade Humanitária de monte Córdova.14449046_585200058271801_7210883034113044045_n

Este ano, o “Palcos de Santo Tirso” acolhe ainda o Teatro Amador do Livramento, que chega do Funchal para uma tripla apresentação de “A verdadeira História do Capuchinho Vermelho”, dirigido ao público infanto juvenil. Santo Tirso estará também representado pela Espiral de Enredos – Associação Cultural que levará à cena o espetáculo “Passagens”, baseado na obra com o mesmo nome de Teolinda Gersão.

 Centro Bartolomeu de Fontiscos, Centro Paroquial de Monte Córdova e Centro Cultural Municipal de Vila das Aves são alguns dos locais que ao longo do mês de outubro vão acolher os diferentes propostas de teatro incluídas nos Palcos de Santo Tirso, entre as quais a comédia “O Aniversário do Casamento”, “Meu Marido que Deus Haja”, “Mulheres”, “O segundo Espelho” e “Flor Alma Espanca”.

Depois de um primeiro ano dominado pela comédia, esta segunda edição não esquece o humor, mas traz também para o palco questões muito sérias como a violência doméstica, em registos de drama, melodrama e tragicomédia.

14572244_585199838271823_5328700867587008027_nDe forma complementar haverá ainda animação de rua, em que o teatro vai ao encontro das pessoas e acontece nos locais mais improváveis do concelho. Todos os espetáculos são gratuitos. O programa completo pode ser consultado em www.cm-stirso.pt .

By: Luis Filipe Maia

O ANIVERSÁRIO DO CASAMENTO
(Em defesa de uma estética do quotidiano)

A árvore arrancada à terra, morre; o animal deslocado do seu habitat, morre; a arte desapossada da sua alma, morre. Ora, a alma do teatro é o público, e o público é formado por pessoas de indistinta condição, portadoras de diversas ideologias, marcadas por múltiplas experiências e originárias de diferentes meios. Mas pessoas. Com as suas ambições, problemas, convicções, dúvidas… Pessoas que desenvolvem uma eterna luta contra o sofrimento, o medo, o abandono, a solidão… e que procuram a realização dos seus anseios e programas de vida, em comunhão com familiares e amigos. Que se projetam nos outros e deixam que os outros se projetem em si.14516570_585199988271808_9167317744285528681_n
Pessoas carregadas de emoções, desejos, sonhos, esperanças; pessoas humanas, inconstantes, frágeis, inquietas… que buscam a harmonia existencial e o equilíbrio social com base em contratos de alma, tendo em vista a felicidade, o bem-estar e a partilha. Para alcançar estes estados, todo o homem recorre, ainda que inconscientemente, à fuga mundi, antídoto que lhe permite lutar contra todo o tipo de situações que lhe oprimem o espírito, ou lhe cerceiam as pulsões oníricas e imaginárias, como sejam os casos do peso da rotina diária ou o tédio de uma existência monótona, mecanicista e serviçal.
Ora, um simples passeio (como a celebração deste aniversário do casamento) ou umas férias programadas entram neste processo de restauração da vida interior, tão necessário ao combate sempre exigente de um dia a dia marcado por comportamentos estereotipados. A fuga a um quotidiano potenciador de ruído e conflito, abre campo à expressão de uma relação recentrada na vivência amorosa do casal, pois o escapismo sensual ajuda a promover a catarse das emoções, a corrigir mentalidades desencontradas, a certificar valores e identidades, e a aprofundar sentimentalidades alheias, e muito mais.
Neste extraordinário exercício humano, que é a vida conjugal, raramente se ressalta o lado lúdico da relação amorosa, mas que muitos casais sabem explorar de modo delicioso: é o que acontece com a Bela e o Beto que, a despeito de uma constante tensão emocional, recorrem ao humor para operarem uma síntese espiritual, decorrente de uma dinâmica de complementaridade e alternância. Os erros, as imperfeições, os equívocos, as queixas, as desconfianças, são motivo, não de discórdia ou rutura, mas de “alimento” do próprio casamento, e cada cônjuge vive tanto melhor quanto melhor é a dádiva do outro.
Beto e Bela pretendem assim ser um casal saudável, que purifica o ambiente doméstico e não deixa criar quistos de perigosa animosidade, e se diverte tanto quanto se provoca, pois que na vida de um casal, as zangas pertencem à essência do amor, pois já Terêncio dizia na Ândria que amantis irae amoris integratio est. Associemo-nos pois ao teatro na consagração de um valor sentimental que tem sido o mais importante sustentáculo da humanidade de todos os tempos. Viva a família e viva o teatro!

Fernando Pinheiro
(Escritor e encenador)