À conversa com...
À conversa com… Daniela “Pisko”

A nossa convidada de hoje é Daniela Sofia da Costa Ferreira, mais conhecida no mundo do futsal por “Pisko”, que recentemente se sagrou vice-campeã europeia ao Serviço da Seleção Nacional.

Natural e residente em Vila das Aves, Daniela é uma das mais telentosas jogadoras de sempre do futsal nacional. Tem 29 anos, atua como ala e atualmente defende as cores da equipa Novasemente.

Olá Daniela, em primeiro lugar queria agradecer a tua disponibilidade para esta entrevista e iniciar a nossa conversa perguntando-te, como surgiu o gosto pelo Futsal e com que idade começas a praticar?

Eu costumo de dizer que o gosto por jogar à bola já nasceu comigo, é genético e está relacionado com a minha família paterna uma vez que o meu avô, o meu pai e o meu tio foram jogadores de futebol profissionais. Inclusivé, também o meu primo está a seguir o mesmo caminho. Nos intervalos da escola, na rua com os amigos ou até mesmo em casa sozinha, a bola era a minha melhor amiga. Acabei depois por jogar futsal no desporto escolar.

Ultimamente, e muito por culpa das boas prestações da nossa selecção, o Futsal Feminino português tem tido uma grande projeção nacional e internacional, como vês o estado actual do Futsal Feminino Português ?

De facto, quando o nome de Portugal surge no Desporto, a visibilidade que apresenta é sempre maior. Afinal estamos a falar dos melhores praticantes portugueses que nos vão representar em competições internacionais. Como portugueses e adeptos do desporto, temos sempre o nosso sentido patriota mais apurado e torna-se mais fácil ter uma maior visibilidade porque existe o interesse de um público maior. Juntando isto ao trabalho que a FPF tem feito em prol do futsal, inclusivé no feminino e sobretudo ao nível das seleções projetou e muito esta competição.Relativamente ao campeonato nacional português, apenas Benfica e Sporting acabam por ter mais protagonismo na comunicação social. Pelos motivos óbvios visto terem muitos adeptos e também porque têm meios próprios de divulgação que ajudam em parte. Ainda assim, tudo isto torna-se insuficiente para que todos os clubes consigam patrocinadores e apoios. Não é fácil criar melhores condições de trabalho quando não existe investimento suficiente nem quando as próprias atletas tem disponibilidade para treinar todos os dias e maioria em horários muito tardios.Esta é a realidade de quase todos os clubes de futsal feminino em Portugal. Felizmente, existe muito amor à camisola, quer da parte das atletas como de muitos treinadores, diretores, etc.

Como foi disputar o Europeu perante tanta gente, ainda por cima quando muitos estavam lá por tua causa?

Foi um sonho no qual apenas faltou vencer que era aquilo que queríamos. Durante 3 semanas vivemos exclusivamente para o futsal, 24h sob 24h com 2 ou 3 dias de folga apenas. Já tinha estado em finais de outras competições onde o ambiente também foi fantástico mas o público nesta competição conseguiu elevar a fasquia para um nível de apoio nunca antes visto e sentido. O ambiente foi de perfeita comunhão entre todos. Quem não gosta de jogar assim? Pavilhão cheio, vozes afinadas sempre a cantar, a família do coração e do futsal a assistir. É um orgulho vestir aquela camisola e sentir que todos estão connosco naquele momento.

A Espanha acaba por ser uma justa vencedora. O que falta para nós chegarmos lá?

Sim, é verdade. A Espanha foi uma justa vencedora. Os erros que cometemos elas aproveitaram da melhor forma, os erros que elas cometeram não conseguimos ser eficazes. O campeonato espanhol é mais competitivo que o nosso e elas acabam por ter melhores condições de trabalho em geral. Isso ajuda a que em momentos deste tenham mais maturidade em lidar com todos os momentos do jogo. Também me parece que a sorte em alguns momentos não quis nada connosco. Por tudo o que fizemos acho que merecíamos um pouco mais, o resultado não espelha o que se passou em campo.

Como tens vivido estes dias de reconhecimento generalizado?

Isto é voltar à realidade, ao meu dia a dia. Trabalho, treino ao final do dia. Claro que há quem me reconheça e aborde mais vezes. Sou mais solicitada pelos órgãos de comunicação social.Mas a minha rotina é exatamente a mesma.

Recentemente esteve entre as nomeadas para melhor atleta do mundo e estás também para melhor atleta portuguesa do seculo. Isso aumenta a tua responsabilidade?

A responsabilidade que tenho em jogo, seja pelo clube ou pela seleção é sempre a mesma. Não aumenta nem diminui. Nem faria sentido ser doutra forma. A nomeação para prémios individuais não altera em nada a minha força de ser ou de estar. 

Tens algumas referências no Futsal que sirvam de modelo e inspiração no que ambicionas ser como atleta e no futsal?

A minha principal referência no futsal foi a Katy (Catarina Silva). Digo foi, porque já se retirou do futsal. Quando comecei a dar os primeiros passos na modalidade e posteriomente quando partilhei o balneário com ela, pude constatar que se tratava de alguém que além de em campo ter uma prestação elevada e uma forma de jogar que eu apreciava, era também uma colega de equipa e um ser humano formidável. Foi um exemplo para mim dentro e fora das 4 linhas.

 Como te caracterizas como Jogadora e quais as tuas maiores qualidades?

Eu defino-me como uma jogadora completa e racional em campo. Destaco a minha leitura e conhecimento do jogo, tenho um bom remate de meia distância, trabalhadora, competitiva e ambiciosa em relação a todas as provas que disputo.

 Quais os teus objectivos pessoais como atleta?

Os meus objetivos como atleta assemelham-se aos objetivos da minha equipa que passam por vencer todas as provas nacionais. Para mim, não seria possível estar numa equipa em que os objetivos não fossem os mesmos. Individualmente procuro sempre estar a um bom nível para ajudar a equipa nessas conquistas.

Uma questão inevitável, de onde vem a alcunha Pisko?

A alcunha Pisko vem desde já alguns anos. Estava numa seleção distrital onde havia mais que uma Daniela, então como era a mais jovem e mais pequena apelidaram-me de Pisko. Fazendo a associação ao pássaro.

Entrando agora no campo pessoal, como é a Daniela fora do Pavilhão?

A Daniela é uma pessoa simples e pacata, que gosta de rir e de viajar, conhecer novos lugares, ver séries, ouvir música e estar com os amigos e família.

Sendo a “bola” um mundo mais de homens, alguma vez ouviste algo menos positivo por gostares de jogar? Por exemplo na escola chamavam-te “maria-rapaz?

Já me chamaram Maria-Rapaz na escola mas não considerava essa expressão negativa. Até porque acho o diziam de forma carinhosa. Queriam que fizesse parte da equipa deles e não me sentia nada discriminada pelos meus colegas, pelo contrário. Não tive grandes episódios ou situações negativas por jogar à bola. E, quando as tinha vinham mais da parte dos adultos “jogar à bola não é para meninas”. Se era algo que gostava de fazer, me fazia feliz, porque não jogar? Não estava a prejudicar ninguém ao fazê-lo por isso… Aqui estou eu a fazer o que gosto na passado vários anos.

Imagino que deva ser difícil conciliar a vida pessoal com a vida de atleta? De que é que abdicas em prol do futsal?

Sim, não é fácil conciliar a vida pessoal, profissional e desportiva. Com o passar os anos torna-se cada vez mais difícil é um facto! Quem anda no desporto a este nível sabe que se abdica de muitas coisas. Acabo por ter muito menos tempo para estar com quem gosto, para me divertir e sair.É preciso estabelecer horários e rotinas para descansar, fazer uma boa alimentação. Não há tempo para fazermos tudo o que queremos.

Num balneário há sempre histórias caricatas e engraçadas. Queres contar-nos uma dessas situações?

Existem sempre situações caricatas e que nos fazem rir. Nos momentos em que podemos relaxar acabamos sempre por pregar partidas umas às outras, há quem cante ou goste de dançar. Uma série de situações e episódios que também nos fortalecem como grupo.

Convido-te agora a deixar uma mensagem  aos adeptos e sócios do teu atual clube e também a todos aqueles que te apoiam?

A todos aqueles que me acompanham a mim, ao futsal feminino, à selecão portuguesa e à novasemente quero agradecer o apoio e o carinho desejando apenas que continuem a fazê-lo. São uma peça importante para as nossas conquistas e muitas vezes são a força extra nos momentos de maior adversidade. Aproveito para fazer um agradecimento especial a todos aqueles que nos seguiram neste europeu e fizeram questão de ir ao pavilhão apoiar-nos, enviando mensagens, antes, durante e após a competição. Torna-se quase impossível responder a todos mas aqui fica o meu agradecimento.